O Pacto Global e o combate ao desemprego

O Pacto Global e o combate ao desemprego

O sinal vermelho está ligado e o alerta veio do diretor-geral da Organização Mundial do Trabalho (OIT), Juan Somavia. Ele apresentou, no final do mês passado, uma previsão sombria: entre 2008 e 2009, o mercado de trabalho global vai eliminar 52 milhões de empregos no mundo.

Os dados são assustadores e os efeitos ainda muito mais avassaladores, já que a crise mundial atingiu todo o planeta, provocando o crescimento negativo das principais economias. A redução do mercado de trabalho pode ter um forte impacto na área social, já que o emprego é fundamental para reduzir as diferenças sociais no combate contra a fome e a pobreza.

O outro dado alarmante está em relação ao crescimento demográfico mundial. As projeções indicam que entre 2009 e 2010 precisariam ser criados 90 milhões de novos postos de trabalho. No ritmo da atual economia mundial, essa marca será impossível de ser atingida. De acordo com os economistas, é preciso fazer algo agora.

Para Juan Somavia somente um pacto global poderá reduzir os efeitos da crise. Esse pedido foi apresentado na última reunião do G-20, que ocorreu no início do mês em Londres. A OIT identificou que, mesmo anteriormente à crise, havia uma fragilidade das vagas ocupadas no mercado de trabalho.

Ou seja, as vagas ocupadas não ofereciam nenhum mecanismo que garantisse um sistema de proteção ao trabalhador. É para essa vulnerabilidade do mercado de trabalho que a OIT chama a atenção, já que a falta de emprego tem forte impacto social. Segundo a OIT é preciso criar políticas que favoreçam o trabalho digno e tornem a globalização mais justa.

Só para entendermos a lógica dessa crise, a OIT fez um estudo sobre as ações aplicadas por 40 países na tentativa de recuperar o nível de atividade econômica. Dos dados coletados apenas 9,2% das despesas são destinadas à promoção do emprego e apenas 1,8% destinada a medidas de política social.

Isso mostra que as maiores economias do mundo continuam agindo sobre a lógica do mercado financeiro internacional. Esse mercado, de influência neoliberal, provocou o caos e ainda sim são os governos que são obrigados a socorrê-los para que a ferrugem não corroa toda a estrutura das principais economias.

No Brasil, a Fundação Getúlio Vargas divulgou estudo sobre os primeiros impactos da crise mundial no Brasil. Elaborado pelo economista da FGV, Marcelo Neri, o estudo, Crônica da Crise: Ressaca e Resiliência Recentes, revela que depois de quase nove anos em queda, o índice que mede a desigualdade brasileira cresceu. O trabalho foi baseado na renda do trabalho medida pela Pesquisa Mensal do Emprego, do IBGE.

De acordo com o estudo, todas as classes sociais foram afetadas com a redução do nível de participação econômica. Em entrevista à Folha On Line, publicada em 09/04, Marcelo Neri comentou que a crise aumentou o fator de risco de trabalhadores das classes A, B e C caírem para patamares mais baixos.

Para o setor financeiro e a indústria, a situação é pior. A chance de um trabalhador do setor financeiro deixar as classes A, B e C entre setembro e dezembro era 9% maior do que antes da crise. A partir de janeiro, ficou 13,5% maior. Na indústria, esses índices são de 2,7% e 4,1%, respectivamente”, explicou Neri na entrevista.

Mão de obra informal põe em xeque o futuro do mercado de trabalho

Sem renda o trabalhador não pode consumir, sem consumir a empresas não podem manter o nível da atividade econômica. Existe um receio de como a economia mundial voltará a se comportar no período pós-crise. Essa é a hora de recolocar a locomotiva novamente nos trilhos, só que com o viés da sustentabilidade e responsabilidade social corporativa.

O emprego sempre foi o maior instrumento de ascensão social, desde o final do século XIX se travam os primeiros embates entre capital e o trabalho. Muito se avançou no sistema econômico, mas se fizermos uma avaliação criteriosa vamos observar que o trabalhador não é tratado com dignidade.

No Brasil, com a crise econômica entre as décadas de 1980 e 1990 muitos trabalhadores foram empurrados para atuar na informalidade. Essa é outra preocupação mediante o cenário da atual crise econômica. A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) divulgou um relatório na semana passada, que até 2020 dois terços da força mundial de trabalho estará na informalidade.

Hoje no mercado de trabalho existem cerca de 1,8 bilhão de trabalhadores no setor informal, isso representa 60% da força de trabalho global que não tem acesso a um contrato de trabalho e não fazem parte de um sistema de previdência social. Os países pobres vão ser os mais prejudicados já que é onde existe a maior concentração de informais.

O relatório da OCDE chama a atenção para o grupo de 1,4 bilhão de trabalhadores no mundo que dependem exclusivamente do trabalho para garantir a sobrevivência. Dessa forma, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, no quesito redução pela metade da pobreza, não serão cumpridos até 2015.

A OCDE chama ainda a atenção de que países como o Brasil e a Índia têm um crescente número de empregos de baixa qualidade no setor informal. No mundo, 700 milhões de trabalhadores que atuam na informalidade vivem com menos de R$ 2,65 por dia (R$ 79,50/mês) e cerca de 1,2 bilhão ganham menos do que R$ 4,40 por dia (R$ 132/mês).

O quadro é preocupante e fica mais acentuado quando a OCDE revela que o crescimento no setor informal “gera a segmentação no mercado de trabalho, que bloqueia o crescimento e cria desigualdades”. A questão está na dificuldade que países mais pobres terão para redistribuir a riqueza por meio do sistema de impostos e benefícios.

Neste cenário, o grupo de pessoas mais atingidas por essa disparidade será: mulheres, jovens e idosos, que têm uma representação desproporcional no setor informal e, segundo previsões, devem ser os mais atingidos por essas disparidades.

O G-20 já sinalizou no último encontro que vai se mobilizar em favor da abertura de vagas no mercado de trabalho. Só esperamos que isso não seja tarde e que as medidas valorizem o trabalho com garantia formais de contrato e acesso a uma rede de benefícios. A ampliação das linhas de microcrédito podem ser muito úteis neste momento.

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