O olhar interior, a reflexão sobre a vida

O olhar interior, a reflexão sobre a vida

Há muito tempo tenho observado com carinho as transformações sociais. Ora como espectador, ora como uma pessoa como tantas outras que fazem parte desse processo de construção de uma nova sociedade. Esse movimento está focado na construção de um novo olhar, de forma que a vida no Planeta Terra possa ser a base de uma sociedade mais justa e humana.

Na introdução do livro A Águia e a Galinha, Leonardo Boff, fala que todo ponto de vista é a vista de um ponto, ou seja, cada um de nós tem uma visão muito pessoal e particular sobre os fatos que a vida nos apresenta. Dessa forma, construímos a nossa visão de mundo, baseados na nossa cultura familiar e com forte influência do mundo externo em que estamos inseridos.

A riqueza desse olhar diferenciado é o que promove a diversidade, ressalta as diferenças e faz com que cada um de nós esteja dentro de uma complexa máquina chamada sociedade. O funcionamento adequado, desse organismo vivo, que se movimenta, está diretamente ligado à forma como aprendemos a construir o nosso olhar.

Na sociedade do espetáculo tudo é muito fugaz e efêmero. Diariamente somos bombardeados por informações vindas de todas as partes do mundo, um efeito do processo de globalização que afeta diretamente a nossa forma de olhar o mundo. A velocidade dos fatos, na maioria das vezes, atropela a nossa capacidade de reflexão.

Os noticiários valorizam informações de escândalos, crimes e tragédias. Não que a divulgação desses fatos não seja importante, mas é preciso avançar, ir pouco mais além e construir um outro olhar sobre o mundo que dá certo, que luta e pede ajuda. É preciso mobilizar, despertar dentro de cada um de nós o espírito de cuidado e compaixão.

Essa pequena revolução deve ter início dentro de nós mesmos, na renovação dos nossos valores e na forma como gostaríamos que o mundo fosse. Precisamos observar o que existe em torno de nós, perceber que somos nutridos por uma natureza mágica e transformadora

Devemos aprender a contemplar a natureza e observar toda a sua harmonia e nuances: o sol, a lua, a água, o mar, o vento, a chuva, o dia e a noite; o cantar dos pássaros, a vida animal; as florestas e o seu imenso horizonte verde, além da terra que nos dá o alimento e possibilita a sobrevivência de várias espécies.

Devemos ver beleza onde está claro, mas, principalmente, onde está escuro e existe o caos. Muitos podem não concordar comigo, mas a isso tudo chamo de oportunidade de aprender a servir e cuidar. Leonardo Boff também no livro A Águia e a Galinha diz que “o caos não é caótico”. Segundo ele, o caos é generativo porque, justamente, gera oportunidades.

Para fazer algo a mais é preciso olhar para dentro de nós mesmos, perceber que somos semente, que a verdadeira paz não vamos encontrar  no mundo externo, mas deve ser construída no nosso interior. Quando compreendemos o mundo interno, nos damos oportunidade de entender e compreender melhor as diversidades, as diferenças e os diferentes.

Se olharmos como mais atenção, o movimento de responsabilidade social é uma resposta ao modelo econômico caótico, adotado pelo neoliberalismo na construção da sociedade moderna. Hoje milhares de pessoas em todo o Planeta se movimentam para que se possa reduzir o impacto da injustiça social e das mazelas contra o meio ambiente.

Como todo ponto de vista é a vista de um ponto, precisamos nos posicionar para identificar de que ponto estamos vendo tudo isso acontecer. Com certeza, sozinhos não vamos mudar o mundo, mas juntos somos mais fortes e podemos começar a fazer a diferença. Para isso, basta despertamos para nobres sentimentos de transformação.

Olhar para dentro é importante, porque somente com esse movimento é que vamos identificar que podemos ser melhores do que somos. Grandes líderes como Francisco de Assis, Madre Teresa de Calcutá, Ghandi e, atualmente, o Dalai Lama, todos souberam a partir de atos de introspecção desenvolver atitudes compaixão para com o próximo.

Concluo, recorrendo a um trecho do livro Saber Cuidar, de Leonardo Boff: “O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e envolvimento afetivo com o outro”.

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