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A Carta da Terra e a ecopedagogia

A Carta da Terra e a ecopedagogia

Uma boa ideia aliada a uma boa iniciativa é fundamental quando falamos de educação. Se tivermos a proposta de contribuirmos para a transformação do habitat em que vivemos nada melhor do que investir em iniciativas, que possam ajudar na transformação do Homem.

Recentemente assisti na TV Cultura, no programa Balanço Social uma matéria sobre uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo, que desenvolve com os professores da rede municipal de ensino um trabalho de conscientização sobre a Carta Terra.

Os coordenadores pedagógicos das escolas da rede desde 2007 participam de oficinas e trabalham os temas sugeridos pela Carta da Terra. O trabalho é organizado pela UMAPAZ – Universidade Aberta do Meio Ambiente e da Cultura de Paz, órgão ligado à Secretaria Municipal de Verde e Meio Ambiente de São Paulo.

O programa é realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e tem como meta atingir 600 escolas, divididas em 36 turmas descentralizadas em toda a cidade de São Paulo. A iniciativa é inovadora e desenvolve os princípios da ecopedagogia, um instrumento que pode ajudar a desenvolver uma nova consciência em relação ao cuidado com o meio ambiente.

A Carta da Terra começou a ser produzida na Conferência de Meio Ambiente da Rio 92. Dez anos depois, em 2002, a Unesco acolheu o documento, escrito por pessoas de diversas partes do mundo, que se transformou em um código de ética planetária que tem como princípios o respeito: à comunidade da vida, à integridade ecológica, à justiça econômica e social e à democracia, cultura de paz e não-violência.

O trabalho desenvolvido pela UMAPAZ desenvolve esses temas fundamentais para a formação do cidadão. O trabalho precisa ser ampliado e fazer com que outros municípios também promovam este tipo mudança na educação. Em pleno século 21, ainda, são poucas as iniciativas de preparar os jovens para uma nova realidade. Acredito que essa ação deveria ser implementada como uma política pública em todo o país e adotada pelo Ministério da Educação.

Lembro do meu tempo de repórter em Campos dos Goitacazes, interior do Rio de Janeiro, quando em algumas ocasiões conversei Darcy Ribeiro, que naquela época estava à frente do projeto de implementação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Uma das coisas que mais me chamavam a atenção era o entusiasmo dele quando falava de educação.

Darcy era defensor da inovação e das boas ideias. Lutava e se empenhava para que a educação pudesse, realmente, transformar a realidade das pessoas. Ele acreditava que não devíamos formar robôs, mas cidadãos que tivessem capacidade de refletir e atuar no processo de mudança e construção de uma nova realidade. O professor estava sintonizado com as necessidades da educação do novo milênio e defendia a ampliação da cultura.

Recorro a Darcy Ribeiro, justamente, por reconhecer que a iniciativa da UMAPAZ está focada dentro de uma nova realidade que precisa se impor no processo de educação. Este trabalho não é de resultados imediatos, mas uma semente de esperança que se pode mandar para o futuro.

Lembro-me como se você hoje e ainda ouço de forma muita clara em meus ouvidos um depoimento de Darcy Ribeiro. Meio que falando rápido, como era característica dele, e com o entusiasmo que lhe era peculiar. Essa entrevista ocorreu em 1993 em uma visita às obras da Uenf, quando ele destacou o seguinte:

“Precisamos preparar os nossos alunos para que tenham uma visão holística do mundo. Eles precisam aprender a ter várias habilidades. Isso só tem a somar na formação do Homem. O conhecimento deve ser aliado das exigências dos novos tempos e da construção de um novo mundo, porque isso é investir na formação humanística”.

Já se passaram 16 anos e muito pouco se avançou neste sentido. O nosso processo de educação precisa ser revisto. Não basta melhorar salários, é preciso investir em conteúdo, em formação e capacitação dos professores. O que não se percebeu ainda é que a escola é o principal espaço de transformação social.

Por isso, o trabalho da UMAPAZ vem preencher uma grande lacuna que existe na formação dos professores. No site da instituição é possível ter acesso aos temas estudados e aos materiais de referência. No processo pedagógico do projeto existe espaço para trabalhar o tema espiritualidade com textos de Leonardo Boff e outros autores de destaque como Edgar Morin e Sai Baba

Reflexão: Sathya Sai Baba, um dos maiores educadores da Índia, falou sobre os princípios da educação em uma conferência internacional.

“Primeiramente, devemos deliberar sobre os cinco princípios da educação. Eles referem-se às seguintes questões: o que é educação? Quais os tipos de educação? Qual o principal objetivo da educação? Quais as responsabilidades dos professores? Quais os benefícios da educação?”

“Apenas quando reconhecemos o significado interno desses cinco princípios é que podemos entender o significado da educação. A educação é de dois tipos: o primeiro se relaciona somente com o conjunto de fatos e com o conhecimento sobre o mundo externo e o ensino dos mesmos aos estudantes. O segundo tipo é o educare.”

“Educare envolve o entendimento profundo da sabedoria que surge de dentro e sua transmissão aos estudantes. A educação de hoje dá aos estudantes, principalmente, o conhecimento sobre o mundo externo. Mas é apenas a cultura ou o refinamento que podem desenvolver a bondade humana, e não a educação moderna tradicional”.

“A educação atual é destituída de cultura e é como uma moeda falsificada. Nem mesmo um mendigo aceita uma moeda falsificada. Então, como pessoas com experiência e inteligentes aceitam essa educação? A educação sem cultura é como uma sala escura. Apenas morcegos podem viver em uma sala escura. Essas salas são sujas”.

“Assim, obtendo essa educação destituída de cultura, nossos corações se tornam salas escuras e, por isso, muitas qualidades animais encontram seu caminho neles. A educação sem cultura é como uma pipa com sua linha partida. Ninguém sabe onde ela irá cair e qual dano irá causar aos outros”

“Desse modo, essa educação não beneficia ninguém. É, portanto, essencial, desenvolver educare, assim todos poderão experimentar a bem-aventurança de dentro. Somente se a educação for combinada com a cultura é que ela irá resplandecer como uma verdadeira educação”

“O que é cultura? É o cultivo de pensamentos bons, sentimentos bons, qualidades boas e a erradicação de pensamentos maus, qualidades más e sentimentos maus, discernindo entre o bem e o mal, o pecado e o mérito, a verdade e a mentira. Não só isso, a cultura torna a pessoa tolerante destruindo sua mente limitada”… (clique aqui para ver o texto completo em arquivo PDF)

Pelo o que se pode observar Darcy Ribeiro e Sai Baba quando falam de educação tem muitos pontos em comum. Um no ocidente e o outro no oriente. As diferenças e os diferentes se complementam. Que tal refletirmos sobre isso!

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